terça-feira, 26 de maio de 2015

O TEMPO DOS SELFIES (por Rosiska Darcy de Oliveira)

País vive eterno presente, em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia
Reprodução de texto publicado em O Globo (23/05/2015).

O autorretrato foi para os mestres da pintura que viveram antes do advento da fotografia a maneira de revelar não só o mundo que viam e como o viam em cores e formas, mas o lugar íntimo de onde viam, a densidade de seu olhar.

Obras-primas nasceram do pincel de um Rembrandt ou de um Van Gogh, que legaram ao futuro seus rostos em várias idades, impregnados de suas angústias.

O autorretrato foi sempre um momento maior na carreira de um artista. Buscavam a imortalidade na grande arte e a grande arte no autorretrato. Tinham a dimensão da História.

Hoje, o autorretrato é o exercício preferido de qualquer anônimo que estenda o braço com o celular na mão e lá vem mais um selfie. Um exercício lúdico e narcísico, cujo destino é ser deletado ou, com sorte, fazer um imprevisível caminho na Rede. Uma ou algumas caras, talvez caretas, sem contexto, sem profundidade, imagens deixadas ao efeito de luzes e sombras eventuais.

O selfie não quer fixar nada, senão uma informação fugaz sobre o momento vivido e compartilhá-la com o maior número de pessoas. Não sei se é um brinquedo inofensivo ou metáfora do tempo presente, em que a instantaneidade, a quantidade e o descompromisso com a qualidade são a regra.

Vivemos um tempo sem memória, que tudo registra para logo tudo esquecer. Um eterno presente que capta a instantaneidade do fato e se alimenta da velocidade da informação. Sem passado, que não se cristaliza, diluído em uma renovação permanente de notícias, nem futuro que, sem tempo para amadurecer, é uma ausência.O momento seguinte não tem tempo nem razão para amadurecer.

Marc Zuckerberg, perguntado sobre o objetivo do Facebook, respondeu: “Conectar-se”. Para quê? “Para conectar-se”.

O cotidiano vivido cada vez por mais pessoas e por mais tempo entre as telas do celular e do computador vai moldando uma percepção do mundo que é tão alheia ao mundo pré-virtual quanto um autorretrato de artista a um selfie.

O snapchat, que envia uma foto que dura segundos e se auto deleta, é a última flor dessa língua cada vez menos compreensível para a geração do portarretrato.

A intensa vida virtual atualiza palavras como presencial, um adjetivo que hoje qualifica a natureza excepcional de um encontro entre gente de carne e osso. Manifestações de rua são presenciais. As outras são simplesmente o dia a dia de quem vive no mundo virtual, onde a opinião é produto do dilúvio de informações, muitas de origem aleatória ou autoria incerta.

A quantidade dessas informações, em que a qualidade não é um critério, quando mal digerida é tóxica. Essa é a face oculta de uma admirável democratização do direito de expressão.

Para o bem ou para o mal, a sociedade está mudando mais pela tecnologia do que pela política, desfigurada em partidos carcomidos pela corrupção. Transformados em ajuntamentos de interesses pessoais, sem valores, sem compromisso com o interesse público e sem visão de futuro, recolhem a aversão como sentimento comum à população.

A política desliza, então, para outras formas de expressão e, entre elas, está certamente o fervilhar de debates na comunicação virtual, com os prós e contras desse mundo e de sua incorpórea população.

O Brasil vive um momento de selfies. Um eterno presente em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia, no toma lá dá cá, nos implantes de cabelo, na roubalheira da véspera, na amante do doleiro cantarolando Roberto Carlos na CPI, no ex-presidente que se expõe malhando, suando e dizendo banalidades sobre vida saudável.

Autoridades viram piadas corrosivas na rede, onde a derrisão é a regra. O falso revolucionário que antes cerrava o punho, hoje atravessa a tela com os pulsos algemados. Amanhã é o CEO engravatado da grande empresa que explica, com ar compenetrado, como dar propina. Delata-se. Deleta-se.

O Brasil entrou na era do desnudamento. Nas redes, tudo se sabe, se compartilha, se comenta. Pouco se interpreta. Menos ainda se entende. E amanhecemos em um presente sem futuro.

A cultura virtual está se tornando a Cultura. Há uma armadilha, que precisa ser desarmada, em sua relação com o tempo. Ela impõe uma vida acelerada que não pensa o amanhã.

Falar em dimensão histórica soará estranho a ouvidos jovens. Este texto é longo para quem se exprime em twitter e WhatsApp. Mas é preciso que eles saiam do eterno presente, conheçam o passado e assumam o compromisso com o futuro. Façam projetos ditados por valores. O país precisa deles para superar a esclerose. O futuro será o que eles fizerem.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

domingo, 12 de abril de 2015

É hora de compartilharmos tempo!


Dentro de uma perspectiva apenas linear do tempo, é comum a representação gráfica em formato de pizza, ao analisarmos a distribuição do nosso tempo ao logo de um dia, uma semana ou qualquer outro período.  Acho que o exemplo abaixo ilustra bem este formato.

Mas será que num mundo cada vez mais interdependente, esta representação continua sendo suficiente?

Todos nós temos diferentes papéis na vida. Somos chefes, subordinados, profissionais, pais, filhos, esposos, namorados, fiéis, torcedores, vizinhos, colegas, afiliados, etc. Nós não somos divisíveis e estes papéis se entrelaçam, acontecem simultaneamente e nos demandam tempo.

A interdependência cresce no contato que mantemos com os outros, em cada um desses nossos papéis. “Para a maioria de nós, a maior parte do tempo é usado na comunicação ou interação com outras pessoas” e o número dessas interações só faz aumentar.

Quanto mais oportunidades de contato, reais e virtuais, no trabalho, em casa, e nos círculos de amizades, mais nos defrontamos com a diversidade de ideias, de experiências de vida, de etnias, de origens geográficas, de classes sociais. É um mosaico que torna tudo mais complexo. Não podemos desconsiderar a importância do outro, em nossas vidas.

Como seria então uma distribuição orgânica do nosso tempo interdependente, uma nova versão da “pizza do tempo ” acima?  Uma “pizza” que deixa de lado o egoísmo e nos motiva a conjugar melhor o verbo compartilhar, como resumido na figura abaixo:


Tempo de compartilhar força criativa e energia

É uma nova maneira de se encarar nossas atividades produtivas, nosso trabalho, com foco na inovação, no coletivo, na integração, na confiança mútua.

Tempo de compartilhar emoções

É a hora do amor, do prazer, do lúdico, da troca, da música, do afeto, da alegria, dos relacionamentos de verdade. É o contato com a família, amigos, diversão, auto expressão, redes sociais. É a volta à infância, ainda que por poucos instantes.

Tempo de compartilhar conhecimentos e valores

Se a característica mais importante do profissional – e eu me atreveria a dizer, dos seres humanos - nestes novos tempos, é sua capacidade de aprender, o tempo dedicado a compartilhar conhecimentos se reveste de particular importância.

Tempo de se cuidar

Aqui, a lista é ampla. Inclui os cuidados com o corpo e com a saúde, que não deixam de ser um pré-requisito para um bom desempenho em todas as demais facetas do nosso cotidiano; os cuidados com o nosso bem estar- o que comemos, o nosso conforto, as indulgências que proporcionamos a nós mesmos para nos sentirmos melhor); os cuidados com a mente/espírito – a conexão com o sagrado, a reflexão, a meditação, a transcendência. Muitas dessas atividades podem ser feitas compartilhando experiências com outras pessoas. Por que não?

Sendo uma perspectiva orgânica, estes tempos se interpenetram constantemente, nos conduzindo a um olhar diverso do habitual, em que a premissa é que estamos todos de fato interconectados, como nos ensina a física moderna. Não se trata de uma negação da nossa individualidade mas, sim, um olhar novo, mais generoso, que pode ser estimulante e criativo, nesta nova realidade de um mundo interconectado e interdependente.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Depoimento de uma leitora em pleno Sabático



Recebi hoje este gratificante depoimento de uma leitora do livro Tempo Orgânico. Nele, a gente constata a importância de uma Pausa nas nossas vidas, para refletir e para melhor desenhar o futuro. A Cecília se deu de presente um tempo sabático e está encontrando o seu caminho, com ajuda de diferentes olhares sobre ela mesma, sobre os outros, sobre tudo que a cerca e, principalmente, canalizando tudo isso para suas próprias descobertas e revelações. Fico MUITO feliz em estar fazendo parte deste processo.    

Caríssimo Alvaro,

Estou para te escrever há algum tempo, mas...o tempo de sentar e compartilhar só chegou agora.

Venho de uma trajetória intensa, de desafios, conquistas, oportunidades, generosidade... e muitos aprendizados. E foi esse "caldo de cultura" que me levou a um tempo sabático, de reflexão, apropriação e desenho de uma próxima trajetória.

Foi prazeroso, instigante e divertido passar pelas páginas do livro. Váááários trechos poderiam ter sido escritos POR mim, e em muuuuitos outros tive a sensação de que foram escritos PARA mim.

Agradeço tanto a você, o autor, quanto ao Paulo, o emissário, por me trazerem essas reflexões e indicações.

Não tenho dúvida de que é possível e....tudo leva a crer que o melhor caminho começa por mim.

Com carinho e gratidão,

Cecília

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

MAKING OF - ERA UMA VEZ UM LIVRO...


- Vô, conta uma história? 

Estirei-me no chão, ao lado da cama do Daniel, que já estava acomodado para dormir, e sugeri:

- Que tal hoje, pra variar, a gente inventar, juntos, uma história nova?

Seus olhinhos brilharam, enquanto girava na minha direção e se deitou apoiando o queixo com as duas mãos.

- De robô?!

Pronto, estava dada a partida! Daí pra frente, a coisa foi fluindo, cada um dando um pitaco, a trama caminhando naturalmente. Mais dois personagens se destacaram: um menino e seu avô.

Quando chegamos ao final do pequeno conto, foi Daniel quem propos:

- Vovô, porque não fazemos uns desenhos e publicamos um livro?

Disse um “Claro!!!” com a voz super animada, mesmo sabendo da “encrenca” em que estávamos nos metendo. Mas nem deu tempo para ponderar nada, pois sou logo convocado pelo Lucas, no quarto ao lado.

- Vô! Vem cá! Também quero ouvir o que acontece com o robô.

Dei um beijo de boa noite no Daniel e fui ao encontro do seu irmão.

Contar o enredo novamente, logo em seguida, fez com que ele se consolidasse na minha cabeça, facilitando muito o passo seguinte. Naquela mesma noite, peguei o notebook e fiz uma sinopse da trama, já com algumas anotações para transformá-la em texto.

No dia seguinte, quando Daniel chegou da escola percorri com ele aquele resumo, anotando com cuidado seus comentários e alguns ajustes. Estava, então, pronto para redigir a primeira versão completa da nossa criação conjunta.

Escrevi em português, que tinha sido, afinal, a língua original da ideia. Li o texto inicial para o Daniel, sempre registrando suas reações e contribuições.

O passo seguinte foi começar a trabalhar nas ilustrações. Daniel rascunhou algumas alternativas para a imagem do robô, que havia sido batizado como D8, combinando a inicial do nome do personagem Daniel (que coincidência!) com sua idade, 8 anos. Escolhemos a imagem que melhor pudesse ser construída com formas geométricas básicas. Rabisca pra lá, rabisca pra cá, e acabou saindo a forma do D8. Depois, fomos bolando a ilustração da capa e de cada um dos 5 capítulos.

Aí veio a fase do inglês. Adivinha como? Google Translate!  Sim! Não ficou muito legal, naturalmente, e aí Daniel deu uma boa colaboração. Ele –óbvio - domina muito mais o idioma do que eu.

Só sei é que, de repente, tínhamos tudo que precisávamos para ir ao site Create Space (da Amazon). Escolhemos o formato, fiz o upload do texto com as ilustrações, formatei a capa, consultando meu co-autor e aí demos o último click para encomendar duas provas impressas do livrinho.

Alguns poucos dias se passaram e o “D8 Robot” chegou. O misto de alegria e surpresa do Daniel quando viu o livro e o sorriso mágico que permaneceu em seu rosto enquanto o folheava com atenção, valeram cada segundo dedicado àquele projeto. Magia pura quando nos abraçamos, comemorando a vitória. Unforgettable!!!



PS: depois de uma rigorosa revisão do texto, feita pelo Professor Amadeu Marques, e de mais uma prova, o livro pode ser finalmente liberado para venda, na versão impressa e na versão Kindle.

Veja em http://zip.net/bcqL7L









quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

VALE A PENA DIALOGAR COM STAKEHOLDERS?


Quando penso nas atividades que mais me trouxeram realização profissional, não posso deixar de destacar minha responsabilidade pela coordenação do relacionamento com o COMMON – Europe, Grupo (independente) de Usuários IBM (sistemas de médio porte), durante a época em que atuei no Centro Internacional da empresa, em Milão.

Nessa função, em primeiro lugar, levantava os assuntos em que os clientes estavam manifestando maiores dúvidas e dificuldades no uso de hardware e software daquele tipo de sistema (que eram uma espécie de mainframes de pequeno porte). Em seguida, identificava, nas equipes dos laboratórios e centros de desenvolvimento da IBM em todo o mundo, quais eram os profissionais mais qualificados e capacitados em cada um daqueles assuntos. E organizava e promovia, a cada semestre, uma espécie de “Congresso”, com sessões plenárias (assuntos de interesse geral daquela comunidade de usuários) e, principalmente, uma agenda de sessões paralelas, sobre os tais temas que haviam sido levantados.

Nessas sessões, estavam finalmente, cara a cara (com a eventual ajuda de um mediador/facilitador), quem estava enfrentando problemas com seus equipamentos e programas, e os seus respectivos “inventores”. Eu atuava também como um dos mediadores dessas sessões técnicas, em geral aquelas em que se esperavam “conversas” mais “acaloradas”.

A atividade se fechava com a produção e divulgação de relatórios com os resultados das sessões, onde os compromissos de melhorias nos produtos eram assumidos por quem, de fato, poderia realiza-las. E fazia o acompanhamento do andamento desses compromissos, prestando contas ao Grupo.

Os resultados do processo eram extraordinários, tanto sob a ótica de satisfação da base de clientes, como, especialmente, pelo aprimoramento - e criação - de produtos, tudo orientado por quem os usava no dia-a-dia.

Hoje, muito se fala de “Stakeholders Engagement”. Quando comecei a me preparar para atuar como consultor em Gestão de Sustentabilidade Corporativa, este foi um dos temas que mais me mobilizaram. Desde os “velhos tempos” do COMMON, sei muito bem do valor que têm o diálogo aberto e o respeito a quem é afetado pelas atividades da empresa. E as minhas vivências mais recentes só fazem reforçar esta constatação.

Fonte da ilustração: http://www.humantific.com/brain-to-brain-communication/


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O QUE VOCÊ TEM A AGRADECER?


Eu costumo encerrar minhas práticas diárias de meditação com uma sequencia de 4 pequenas reflexões, conduzidas pelas expressões: EU AGRADEÇO / EU PERDOO / EU AMO / EU CONFIO.
Portanto, acho muito legal este Dia de Ação de Graças, o Thanksgiving Day, celebrado nos Estados UNidos e no Canadá, de gratidão a Deus, com orações e festas, pelos bons acontecimentos ocorridos durante o ano.
O Facebook divulgou um estudo interessante, feito na sua base de informações, nos primeiros dias desta semana, nos Estados Unidos. Foram coletados para análise, de forma anônima (afirmam eles), os conteúdos das postagens que incluíam as palavras Grateful ou Thankful. Estes dados foram professados por um algoritmo de texto que identificava a que as pessoas se sentem gratas. O resultado, estado por estado, mostra pontos muito curiosos. Na Califórnia e Virgínia aparece o youtube (é isso mesmo, gente?). O pessoal do Oregon gosta de... ioga. Na Lousiana e Hawaii, o grande barato são os arco-iris. No Alaska, o riso das crianças. Beleza! Clique no mapa aí abaixo para fazer suas decobertas.
A matéria complete está em https://www.facebook.com/notes/facebook-data-science/what-are-we-most-thankful-for/10152679841318859

domingo, 6 de julho de 2014

A estranha árvore que salvou minha vida (ou “Os perigos das auto avaliações”)

O dia estava lindo, na ciclovia da Lagoa. Ali perto do Parque dos Patins, vejo o sobe desce dos helicópteros e me lembrei que por pouco não tinha sido piloto dessas incríveis máquinas.

Era ainda o tempo de jovem tenente na Marinha. Leio o aviso de que as inscrições para o curso de piloto de helicóptero estavam abertas e me registrei no mesmo dia. Além da ideia fascinante de voar, ainda havia o bonus de uma formação de quase dois anos ser feita nos Estados Unidos. Imperdível.

Todos sabíamos que era um processo de seleção muito difícil, que tinha três etapas:

- Exames médicos (vista e ouvido, em particular, extremamente rigorosos)
- Exames de coordenação motora, talvez a parte mais difícil e supreendente (nunca tinha passado por nada parecido)
- Teste psicotécnico

Nas duas primeiras etapas, fui maravilhosamente bem. Tinha tido feed backs muito positivos e estava, portanto, já me sentindo um piloto. Fui fazer o psicotécnico apenas para “cumprir” agenda e saí dele com a serenidade dos vitoriosos por antecipação.

Dias depois, sou chamado por um dos psicólogos para me dar a notícia: tinha sido...reprovado. Segundo ele, minha personalidade indicava uma mente muito aberta e dispersiva, incompatível com a função.

- O primeiro pássaro raro e colorido que aparecer vai desviar sua atenção do que está fazendo e o helicóptero cai”, me sintetizou ele.

Muito nervoso, revoltado, quase perdendo o controle, perguntei como ele tinha chegado àquele resultado.

- Vários indicadores mostram isso. Mas o mais evidente talvez seja... a árvore que você desenhou. Veja aqui... E começou a me dar explicações técnicas às quais, confesso, não prestei a menor atenção. Estava ainda sob o “choque” do veredicto. Virei as costas e sai de maneira descortês e deselegante.

Hoje sou profundamente grato àquele psicólogo. Ele salvou minha vida. Por que?

A experiência me mostrou que sou de fato um espírito inquieto, sempre buscando novidades, muitas vezes me interessando pelos pássaros “passantes” e desviando meu foco para eles. Provavelmente, teria caído com alguma aeronave da Marinha.

Esta vivência me ensinou que muitas das nossas “certezas” sobre nós mesmos podem estar completamente equivocadas. Tenhamos cuidado.

Curiosidade: hoje esses testes não são muito utilizados e na web você encontra muitas dicas sobre como faze-los. Por exemplo, neste link aqui: http://pt.slideshare.net/rayssa2/testes-psicotecnicos

Fonte da imagem: http://ritualdoalimento.blogspot.com.br/2013_05_01_archive.html

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Por que você odeia o trabalho?

Uma recente matéria publicada pelo New York Times, com o sugestivo título "Why you hate work" (Porque você odeia o trabalho) traz um cenário inquietante sobre a relação das pesssoas com o trabalho. O artigo usa como referência uma pequisa realizada com mais de 12.000 pessoas em vários paises e que tem no quadro abaixo algumas boas explicações, comparando o que as pessoas têm (coluna da esquerda) ou não têm (coluna da direita) quando estão no trabalho. 



Em um mundo com demandas crescentes e recursos limitados, as pessoas estão trabalhando mais horas, passando o dia inteiro “escravizadas” por dispositivos digitais, e tendo menos tempo para refletir, renovar e priorizar. Como resultado, elas estão se sentindo cada vez mais esgotadas, estressadas e dispersivas. Esta não é uma forma sustentável de trabalho para os indivíduos ou para as organizações.

Muito se fala, hoje, que o tempo virou um luxo. Quando se observa o seu impacto sobre a produtividade - de indivíduos e de organizações-  e sobre a falta de realização pessoal no trabalho, onde as pessoas passam grande parte do seu dia, a suspeita é de que  mais do que luxo, o tempo se tornou, mesmo, uma das questões mais críticas da nossa sociedade.  

terça-feira, 29 de abril de 2014

Segunda chance: sobrevivi a um choque de 6.000 volts


Isso faz tempo. Décadas. Mas era um 29 de abril. Eu ainda era solteiro e morava com meus pais. Acabaramos de nos mudar para um novo apartamento, que tinha uma enorme janela na sala: 12 metros.

Sábado de manhã, chega o cara que vinha instalar os trilhos da cortina: cada seção media seis metros e não passava pela escada. Tinha que ser por fora do prédio e era preciso algúem ajudar. Ofereço-me como voluntário, parecia simples. Ficavamos no segundo andar e bastava puxar o trilho para dentro, quando o carinha me alcançasse ele lá de baixo.

De repente, o inesperado. Ao puxar o trilho, de alumínio, longo e bem mais leve do que eu imaginava, sua extremidade se eleva com rapidez e toca o fio de alta tensão, que ficava mais ou menos na altura da janela, uns cinco metros afastado. Encostado na esquadria de alumínio da janela, meu corpo fechava o circuito como uma "luva".

Ouvi o forte estrondo e senti meu corpo ser ejetado para trás.

A sensação seguinte foi a mesma que muita gente já relatou. À medida em que fui apagando em camera lenta (apesar disso ter levado fração de segundo), imagens da minha vida foram passando, flash back como uma edição de video clipe. Enquanto isso, pensava:

- "Que merda! Morrer aos vinte e três anos por causa de uma babaquice dessas. Que morte mais triste, gente".

Logo em seguida, a consciencia começa a voltar. Aos poucos, me dou conta que meu corpo estava totalmente retorcido: posição fetal, todos os músculos crispados.

- "Graças a Deus!!! Não estou morto. Vou ficar aleijado assim, mas vou conseguir viver, penso com moderado otimismo".

Nisso, ouço os gritos de "mexa-se", "movimente os braços", "abra e feche as mãos", "tente se esticar" e obediente, aos pouco vou percebendo que tudo volta a uma certa normalidade. Depois, fiquei sabendo que era um bendito vizinho do prédio em frente, médico, que assistira a tudo. Uma sorte!!!

Outra sorte: o trilho tocou a fiação vindo de baixo para cima e o circuito se interrompeu, assim que fui atingido. Na rede elétrica, havia uma plaquinha que vi mais tarde: "Cuidado - 6000 volts".

Constato então a enorme queimadura nas mãos e na parte lateral superior da perna (na altura da esquadria onde me apoiara na hora do acidente) e vejo minha mãe também caida no chão, metros adiante. Ela também se encostara na janela e apesar de forma bem mais leve, também fora atingida pela energia.

Bem: a ambulância chegou, eu e Jacy fomos medicados em casa, mesmo, tomei sob protestos uma injeção de calmante. Horas depois, a calma me abandonou. A lembrança daquela sensação de "morrer" (o tal flash back) se instalou, me fazendo chorar. Passei o resto de sábado e todo domingo naquele estado. Na segunda meu pai aplicou uma terapia ocupacional:

- É melhor você mesmo ir tratar dessa história na Light (o transformador do prédio queimara e estavamos sem luz).

Isto aconteceu num dia 29 de abril, que considero portanto um segundo aniversário (sou de 13 de fevereiro).

Hoje, sei que aquele foi mesmo uma espécie de "Reset" na minha vida. Ou um alerta, se preferirem. Me fez refletir sobre as coisas, rever conceitos, fazer balanços. Paradoxalmente, o fato me fortaleceu, apesar de me ter colocado frente a frente com minha fragilidade e minha finitude.

Meses depois, deixo uma promissora carreira na Marinha, após dez anos por lá, surprendendo até a mim mesmo. E parto para novas "aventuras", das quais definitivamente, não me arrependo.



















domingo, 13 de abril de 2014

MOMENTOS GOIABADA CASCÃO


Quando eu era menino, tanti anni fa, tinha uns tios que moravam em Campos.  Quando eles vinham ao Rio, nos traziam um presente sempre muito desejado: uma lata da famosa goiabada cascão produzida lá. Nas ausências mais prolongadas, mandavam a goiabada pelos Correios. Na época, era praticamente impossível achar aquela iguaria no comércio do Rio.

Aí, era sempre uma festa, lá em casa. Quase um ritual, na pequena família, inicialmente eu e meus pais e, mais tarde, tambem meu irmão Ricardo: abrir a lata, cortar pequenos pedaços e nos deliciarmos com aquele sabor, consistência e textura inigualáveis são detalhes que nunca mais esqueci.

Às vezes, cabia-me a "honra" de usar a faca, tentando que todas as fatias fossem rigosamente do mesmo tamanho. Sintia-me importantíssimo com aquele privilégio.

Mais do que degustações, em que eventualmente um queijo Minas ou um Catupiry também marcavam presença, era um momento afetivo muito especial.  É claro que o ritual incluia conversas sobre tia Laurita, irmã de meu pai, seu marido Clementino e os primos Marco e Anita, de Campos, que nos proporcionavam aquele prazer; além de relatos de "causos", quase sempre divertidos, sobre os parentes em geral. 

Era comum servirmos a goiabada tão apreciada a alguma visita de parente ou amigo. Pra mim, foi um um "duro" aprendizado, o de saber compartilhar as boas coisas com os outros. Nas primeiras vezes, confesso que ficava com o olho comprido, tentando calcular se sobraria algum pedaço para outra rodada, no dia seguinte.    

Simples prazeres, hábitos saudáveis de convívio familiar e amizade: boas reminicências. Momentos "Goiabada Cascão" que as nossas vidas agitadas e tecnológicas às vezes tornam difíceis de reproduzir com toda a sua intensidade "analógica", sincrônica e presencial.