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terça-feira, 26 de maio de 2015

O TEMPO DOS SELFIES (por Rosiska Darcy de Oliveira)

País vive eterno presente, em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia
Reprodução de texto publicado em O Globo (23/05/2015).

O autorretrato foi para os mestres da pintura que viveram antes do advento da fotografia a maneira de revelar não só o mundo que viam e como o viam em cores e formas, mas o lugar íntimo de onde viam, a densidade de seu olhar.

Obras-primas nasceram do pincel de um Rembrandt ou de um Van Gogh, que legaram ao futuro seus rostos em várias idades, impregnados de suas angústias.

O autorretrato foi sempre um momento maior na carreira de um artista. Buscavam a imortalidade na grande arte e a grande arte no autorretrato. Tinham a dimensão da História.

Hoje, o autorretrato é o exercício preferido de qualquer anônimo que estenda o braço com o celular na mão e lá vem mais um selfie. Um exercício lúdico e narcísico, cujo destino é ser deletado ou, com sorte, fazer um imprevisível caminho na Rede. Uma ou algumas caras, talvez caretas, sem contexto, sem profundidade, imagens deixadas ao efeito de luzes e sombras eventuais.

O selfie não quer fixar nada, senão uma informação fugaz sobre o momento vivido e compartilhá-la com o maior número de pessoas. Não sei se é um brinquedo inofensivo ou metáfora do tempo presente, em que a instantaneidade, a quantidade e o descompromisso com a qualidade são a regra.

Vivemos um tempo sem memória, que tudo registra para logo tudo esquecer. Um eterno presente que capta a instantaneidade do fato e se alimenta da velocidade da informação. Sem passado, que não se cristaliza, diluído em uma renovação permanente de notícias, nem futuro que, sem tempo para amadurecer, é uma ausência.O momento seguinte não tem tempo nem razão para amadurecer.

Marc Zuckerberg, perguntado sobre o objetivo do Facebook, respondeu: “Conectar-se”. Para quê? “Para conectar-se”.

O cotidiano vivido cada vez por mais pessoas e por mais tempo entre as telas do celular e do computador vai moldando uma percepção do mundo que é tão alheia ao mundo pré-virtual quanto um autorretrato de artista a um selfie.

O snapchat, que envia uma foto que dura segundos e se auto deleta, é a última flor dessa língua cada vez menos compreensível para a geração do portarretrato.

A intensa vida virtual atualiza palavras como presencial, um adjetivo que hoje qualifica a natureza excepcional de um encontro entre gente de carne e osso. Manifestações de rua são presenciais. As outras são simplesmente o dia a dia de quem vive no mundo virtual, onde a opinião é produto do dilúvio de informações, muitas de origem aleatória ou autoria incerta.

A quantidade dessas informações, em que a qualidade não é um critério, quando mal digerida é tóxica. Essa é a face oculta de uma admirável democratização do direito de expressão.

Para o bem ou para o mal, a sociedade está mudando mais pela tecnologia do que pela política, desfigurada em partidos carcomidos pela corrupção. Transformados em ajuntamentos de interesses pessoais, sem valores, sem compromisso com o interesse público e sem visão de futuro, recolhem a aversão como sentimento comum à população.

A política desliza, então, para outras formas de expressão e, entre elas, está certamente o fervilhar de debates na comunicação virtual, com os prós e contras desse mundo e de sua incorpórea população.

O Brasil vive um momento de selfies. Um eterno presente em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia, no toma lá dá cá, nos implantes de cabelo, na roubalheira da véspera, na amante do doleiro cantarolando Roberto Carlos na CPI, no ex-presidente que se expõe malhando, suando e dizendo banalidades sobre vida saudável.

Autoridades viram piadas corrosivas na rede, onde a derrisão é a regra. O falso revolucionário que antes cerrava o punho, hoje atravessa a tela com os pulsos algemados. Amanhã é o CEO engravatado da grande empresa que explica, com ar compenetrado, como dar propina. Delata-se. Deleta-se.

O Brasil entrou na era do desnudamento. Nas redes, tudo se sabe, se compartilha, se comenta. Pouco se interpreta. Menos ainda se entende. E amanhecemos em um presente sem futuro.

A cultura virtual está se tornando a Cultura. Há uma armadilha, que precisa ser desarmada, em sua relação com o tempo. Ela impõe uma vida acelerada que não pensa o amanhã.

Falar em dimensão histórica soará estranho a ouvidos jovens. Este texto é longo para quem se exprime em twitter e WhatsApp. Mas é preciso que eles saiam do eterno presente, conheçam o passado e assumam o compromisso com o futuro. Façam projetos ditados por valores. O país precisa deles para superar a esclerose. O futuro será o que eles fizerem.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

MAKING OF - ERA UMA VEZ UM LIVRO...


- Vô, conta uma história? 

Estirei-me no chão, ao lado da cama do Daniel, que já estava acomodado para dormir, e sugeri:

- Que tal hoje, pra variar, a gente inventar, juntos, uma história nova?

Seus olhinhos brilharam, enquanto girava na minha direção e se deitou apoiando o queixo com as duas mãos.

- De robô?!

Pronto, estava dada a partida! Daí pra frente, a coisa foi fluindo, cada um dando um pitaco, a trama caminhando naturalmente. Mais dois personagens se destacaram: um menino e seu avô.

Quando chegamos ao final do pequeno conto, foi Daniel quem propos:

- Vovô, porque não fazemos uns desenhos e publicamos um livro?

Disse um “Claro!!!” com a voz super animada, mesmo sabendo da “encrenca” em que estávamos nos metendo. Mas nem deu tempo para ponderar nada, pois sou logo convocado pelo Lucas, no quarto ao lado.

- Vô! Vem cá! Também quero ouvir o que acontece com o robô.

Dei um beijo de boa noite no Daniel e fui ao encontro do seu irmão.

Contar o enredo novamente, logo em seguida, fez com que ele se consolidasse na minha cabeça, facilitando muito o passo seguinte. Naquela mesma noite, peguei o notebook e fiz uma sinopse da trama, já com algumas anotações para transformá-la em texto.

No dia seguinte, quando Daniel chegou da escola percorri com ele aquele resumo, anotando com cuidado seus comentários e alguns ajustes. Estava, então, pronto para redigir a primeira versão completa da nossa criação conjunta.

Escrevi em português, que tinha sido, afinal, a língua original da ideia. Li o texto inicial para o Daniel, sempre registrando suas reações e contribuições.

O passo seguinte foi começar a trabalhar nas ilustrações. Daniel rascunhou algumas alternativas para a imagem do robô, que havia sido batizado como D8, combinando a inicial do nome do personagem Daniel (que coincidência!) com sua idade, 8 anos. Escolhemos a imagem que melhor pudesse ser construída com formas geométricas básicas. Rabisca pra lá, rabisca pra cá, e acabou saindo a forma do D8. Depois, fomos bolando a ilustração da capa e de cada um dos 5 capítulos.

Aí veio a fase do inglês. Adivinha como? Google Translate!  Sim! Não ficou muito legal, naturalmente, e aí Daniel deu uma boa colaboração. Ele –óbvio - domina muito mais o idioma do que eu.

Só sei é que, de repente, tínhamos tudo que precisávamos para ir ao site Create Space (da Amazon). Escolhemos o formato, fiz o upload do texto com as ilustrações, formatei a capa, consultando meu co-autor e aí demos o último click para encomendar duas provas impressas do livrinho.

Alguns poucos dias se passaram e o “D8 Robot” chegou. O misto de alegria e surpresa do Daniel quando viu o livro e o sorriso mágico que permaneceu em seu rosto enquanto o folheava com atenção, valeram cada segundo dedicado àquele projeto. Magia pura quando nos abraçamos, comemorando a vitória. Unforgettable!!!



PS: depois de uma rigorosa revisão do texto, feita pelo Professor Amadeu Marques, e de mais uma prova, o livro pode ser finalmente liberado para venda, na versão impressa e na versão Kindle.

Veja em http://zip.net/bcqL7L









quinta-feira, 25 de julho de 2013

Casa SOU.L Uma casa com alma e muitas coisas mais. Inclusive Tempo.


No coração da charmosa Santa Teresa, no Rio de Janeiro, acaba de ser inaugurada esta Casa que, não por acaso, junta Ser e Alma no mesmo endereço. Junta também conhecimento, valores, alegria, emoção e um propósito muito claro: inspirar pessoas a descobrirem seus talentos e paixões e a elas oferecer ferramentas para que possam fazer o que amam e terem impacto positivo no mundo. 
Os Cursos e palestras cobrem três áreas: Realização Pessoal, Autoconhecimento e Sustentabilidade. Em agosto, a Casa acolhe dois eventos criados dentro dos conceitos de Tempo Orgânico:

RESET - Como reinventar o uso do seu tempo. 

Haverá uma Palestra no dia 7/8 das 19:00 às 21:00 e um Workshop, nos dias 15, 19 e 21/8, das 19:00 às 21:30 
 
A Casa tem ainda o Arte Corpo Sou.l, um espaço de vivências para despertar a criatividade, atividades para o corpo, mente e alma, canto, dança e terapias para você entrar em contato com quem você é e se desenvolver de forma mais leve e saudável. 

Visite o site e explore novas possibilidades para você: http://casasoul.com.br/


quarta-feira, 6 de março de 2013

TEM TEMPO SOBRANDO NAS AVENTURAS DE PI


É curioso. Uma das produções mais premiadas este ano por seus efeitos visuais - inclusive o Oscar- não tem o ritmo frenético dos filmes de ação ou ficção, que costumam usar e abusar desses recursos.

O tempo custa a passar para o jovem Pi, o personagem central da trama. Náufrago, perdido no Oceano Pacífico na companhia de seus medos e de um tigre, Pi tem que fazer um esforço às vezes sobre-humano para fazer o tempo passar.  É uma luta contra a monotonia, só quebrada pelos embates no interior do bote, nos inevitáveis enfrentamentos com o Richard Parker, o felino de nome tão desconcertante. Aí, o "bicho pega" (literalmente) e as cenas são de fato de arrepiar.

Mas, na maior parte da história, PI tem que usar toda sua criatividade, inteligencia, resistência física, psicológica, espiritual e sobretudo sua capacidade de aprender. Tudo para manter seu cérebro ativo e focado na sobrevivência, não se rendendo aos seus temores, nem ao lento passar das horas, minutos e segundos.

Para quem vive estressado, acelerado e reclamando que não tem tempo para nada, não deixa de ser uma lição importante estas percepções contrastantes. E não é preciso virar náufrago para sentir na pele esta outra perspectiva do tempo. Quem já teve que ficar internado num hospital - ou acompanhou de perto uma pessoa que passou por isso - sabe do que estou falando: o tempo custa muito a passar, mostrado que, de fato, este ritmo frenético hoje dominante na sociedade é algo muito relativo. Ou seja, isto tem jeito.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

É Carnaval: o túnel do tempo!!!

O Carnaval é uma espécie de túnel do tempo. Ele possibilita que "representantes" de épocas completamente distintas se encontrem, se reúnam, dancem, cantem e bebam juntos e até se amem. A maioria vem do passado, como gregos, fadas, piratas, princesas, gladiadores, ciganas, vampiros, egípcios, anjos, índios ou presidiários. Um ou outro chega mais de mais perto, dos anos 60 ou 70, hippies retrôs, Marilyns, Rauls (ou Elvis). Alguns vêm do futuro, super-heróis ou personagens de filmes.

Na maioria dos casos, nem sempre fica claro de onde o ou a “viajante” está chegando, com poucos elementos que o identifiquem. Um par de chifrinhos, ou uma coroa na cabeça, por exemplo, não deixam claro de que época vem o candidato ou candidata a diabrices ou reinações. Um chapéu de malandro ou uma tuta de bailarina traz o mesmo problema.

E os profissionais? Bombeiros, policiais, médicos e enfermeiras, devidamente estilizados, não costuma ser reveladores de que tempo chegaram. Os animais, muito menos: gatinhas, borboletas, joaninhas, ursos, cães e tantos outros bichos raramente declaram de que ano escaparam.

Muitos estão e ficam mesmo no presente, cronistas do que anda se passando pela cidade, pelo país, pelo mundo afora.

O bom no Carnaval, este carnaval de rua que não para de crescer, é que, em geral, não há pressa, independente das origens de quem entra nesta "máquina do tempo". Vai todo mundo seguindo (ou parando), mais ou menos no mesmo ritmo, tentando sincronizar gestos e passos. A pressa às vezes costuma chegar quando de trata de sincronizar outras coisas, como beijos, abraços e assim por diante. Aí tudo se acelera, movida pela adrenalina dos combustíveis, quando estes se acumulam, muitas vezes acima do que seria razoável.

Mas é Carnaval. Este túnel do tempo em que nem sempre as coisas se explicam e quase nunca se precisa justificar. Coisa boa!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

DIREITO AO DELÍRIO (Eduardo Galeano)



Neste vídeo "histórico", o escritor uruguaio Eduardo Galeno nos brinda com este DIREITO AO DELÍRIO, a partir da definição do que é e pra que serve a UTOPIA, do cineasta argentino Fernando Berri.

CLIQUE AQUI  para assistir ao vídeo (http://www.youtube.com/embed/rpgfaijyMgg)

Foto: El Clarin

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Compartilhar vivências é uma ótima forma de se usar o tempo

“...Tudo o que é compreendido, circula; sai de mim e existe entre nós. Faz parte de círculos e fluxos de pessoas. Toda a verdade
que é só minha não é de ninguém, nem mesmo minha. Todo o saber é partilha e todo o imaginário de ideias e de pequenos ou grandes ideais de vida vale não apenas pelo conteúdo, mas pela quantidade de vozes que foram aos poucos construindo.”  (CARLOS RODRIGUES BRANDÃO)

Esta reflexão foi retirada do mais recente "Caderno Arte de Educar", que está sendo lançado esta semana. Ele apresenta "UMA EXPERIÊNCIA COMPARTILHADA NA CONSTRUÇÃO DE TERRITÓRIOS DE APRENDIZAGEM", onde , mais uma vez a organização nos mostras como os processos de aprendizagem se enriquecem quando alunos e professores, comunidade e atores da sociedade, educação e cultura se dão as mãos.

Saiba mais sobre a Casa da Arte de Educar em  www.artedeeducar.org.br
Compartilhar conhecimento e experiências é uma maravilhosa e produtiva maneira de se usar o tempo. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Papalagui não tem tempo - observações de um nativo de Samoa sobre os "sem tempo"


Esse é o título de um dos capítulos do livro “O Papalagui”, publicado em 1920, pelo escritor alemão Erich Scheurmann. O autor vivera em Samoa durante a primeira guerra mundial e, segundo conta na introdução do livro, havia conquistado a confiança de Tuiávii – um chefe nativo local. Este lhe confiara os apontamentos que havia feito durante uma visita aos países da Europa, no fim do século anterior, e concordou com sua divulgação.

Papalagui é como Tuiávii denomina o homem branco europeu e nas suas observações, ora divertidas, ora severas – mas invariavelmente justas – fica claro o choque de duas culturas tão diversas. O olhar de Tuiavii é, ao mesmo tempo inocente e crítico. Vai fundo ao mostrar os conflitos que surgem quando o respeito à natureza e a simplicidade, que fazem parte da essência dos nativos, se defrontam com a ânsia pelo progresso e a maneira complicada de ver e de viver do homem branco.

“O Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem... Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao por do sol e, no entanto, isto nunca é suficiente para o Papalagui”.


É nítida a crença de Tuiávii de que o tempo é cíclico. É algo que se renova a cada dia, o que ele entende como uma dádiva. Não é algo a priori escasso, como vê o Papalagui. Tuiávii não perde tempo pensando no tempo perdido ou no tempo a perder. Sabe que isso toma tempo e, principalmente, gera desgaste de energia e imobiliza.

“Certos Papalaguis dizem que nunca têm tempo: correm feito loucos de um lado para o outro com se estivessem possuídos pelo aitu (espírito malévolo)”.

O que diria Tuiávii se nos visse, hoje, 90 anos depois, aceleradíssimos, apertando botões e mais botões e parecendo que falamos sozinhos? E o que é pior: andando em círculos, pensando que estamos andando para a frente. Por vezes, tanto esforço para nada. Ou quase.

Acho que está na hora de reaprendermos a ver nosso tempo com olhos de um Tuiávii. Se o Papalagui não tem tempo é porque insiste em fatiá-lo e fragmentá-lo, sem perceber o seu todo.

(Condensado do livro "Tempo Orgânico"). 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

PERSONAL O QUE?


Possivelmente, o primeiro serviço do tipo “personal “ de que eu tenha ouvido falar foi o professor particular: aquele contratado para dar aulas individuais a quem tinha dificuldades em alguma matéria na escola. Isso, é claro, foi MUITO antes de aparecer o personal trainer, de certa forma um precursor muito popular dos serviços pessoais que hoje estão surgindo em toda parte: personal stylist, personal chef, personal organizer, o passeador de cães, etc.

Em geral, a grande motivação para estes serviços terceirizados é a falta de tempo do contratante. Atoladas nos seus cotidianos, sempre sem “ tempo pra nada”, as pessoas acabam pedindo socorro a alguém e novas vocações e profissões são descobertas.

No livro The outsourced self (A terceirização do self), lançado nos Estados Unidos, a autora Arlie Russell Hochschild mostra a abrangência da transformação que esta ocorrendo na vida privada daquele pais, em direção a nichos de mercado cada vez diversificados. Com base em pesquisas e entrevistas tanto com os vendedores quanto compradores, Alie avalia que tudo que antes fazia parte da vida privada, especialmente no contexto das famílias – amor, amizade, cuidados com as crianças - está sendo transformado em especialidades que são empacotadas para serem vendidas a americanos um tanto atormentados.

Elas incluem desde os sofisticados serviços para se encontrar namorados(as) - onde a pessoa “é treinada para ser o CEO do seu próprio amor”(!) , a planejadores de casamento que criam a “narrativa pessoal“ dos noivos para construir a essência (do show) da cerimônia ; de “nomelogistas” (que ajudam você a dar o nome a seu filho), a especialistas em ajudar as crianças na fase de “tirar a fralda”; de “querologistas” (que assessoram a pessoa a saber melhor o que quer na hora da tomada de decisões importantes), a gente contratada para espalhar as cinzas do seu ente querido no oceano de sua preferencia, a autora nos revela um mundo em que os mais intuitivos e emocionais atos humanos estão se transformando em algo para ser contratado.

Há, inclusive exemplos que visam preencher carências emocionais que nascem da solidão de quem trabalha sem trégua , como o “Alugue um amigo” (para ir ao cinema, fazer compras, conversar ou o desconcertante Alugue uma avó (Rent a Grandma), em que uma senhora vai até sua casa para preparar um jantar com aquelas receitas de antigamente, contar historias do seu (dela) tempo e servir de interlocutor para quem tem nostalgia de reunir uma verdadeira família tradicional.

Com tantas ofertas se configurando, o perigo aqui é que o mesmo espirito consumista na compra de bens/produtos se replique na contratação de serviços pessoais.

Fonte da foto: wwp.greenwichmeantime.com

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Gostei do Hugo Cabret!!!


Fui ver o filme. É muuuuito bom, gente. É claro que para mim tem um sabor todo especial: os relógios da estação de tem e seus lindos mecanismos prá lá de fotogênicos (que Direção de Arte!).

A mecânica, por sinal, tem uma presença importante na trama. Além do show de relógios, há o fascinante autômato que desenha (e dá pistas). Mas são as emoções dos personagens que vão, aos poucos, fazendo as "peças" se encaixarem, como um relojinho, trazendo das cinzas do esquecimento o maravilhoso universo de Georges Méliès.

Mágico (literalmente), inventivo, divertido, Méliès fazia, na pré-história do cinema, o que ele tem de melhor: a fantasia  e a ímaginação se tornarem "realidade".

O mestre Scorcese nos trás um de seus melhores filmes, incorporando o espírito de Méliès, na maneira fantástica, visualmente atrevida e, sobretudo, sensível de, ao mesmo tempo, contar uma bela história e fazer uma justa homenagem.  

Recomêiindo!!!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Será que meu neto é um X-Man?


A dúvida surgiu quando vi o Lucas pegando pela primeira vez num iPhone, meses atrás. Sem qualquer instrução (apenas observava o irmão mais velho, Daniel, jogando), em poucas instantes já estava dominando o que lhe interessava. Do alto dos seus dois anos incompletos, dedinho pra cá, dedinho prá lá, via e revia os desenhos animados arquivados no aparelho.

É claro que Lucas não é um menino prodígio. Tenho visto a mesma cena se repetindo, com muitas outras crianças conhecidas nossas, algumas até mais novas. Como se explica? Será que isto tem a ver com algum processo de mutação genética que está ocorrendo rapidamente?

Leio então uma entrevista com o neurocirurgião Paulo Niemeyer que explica: “O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando”.

Ou seja, há mutações genéticas, sim e a isto se soma a incrível capacidade de nosso cérebro de se adaptar. Mas confesso que fico levemente preocupado, me perguntando até que ponto vai esta aceleração. Quais são os limites? Quais são os efeitos colaterais?

Por via das dúvidas, compro um pião de lata, daqueles coloridos que, ao girar, fazem um zumbido, para dar de presente aos meninos. Competição desigual, essa, com o sedutor mundo digital, mas não custa tentar um pequeno antídoto.  

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Corrupção rouba também...nosso tempo!

A corrupção assumiu um caráter endêmico, cultural, insidioso e corrosivo. Está infiltrada em muitos segmentos da sociedade, especialmente na interface com o poder público, embora esteja também presente em muitos ambientes estritamente empresariais. Tem horas que dá desânimo combatê-la. Mas a gente não pode esmorecer, mesmo sabendo que a luta ficou difícil, muito difícil. Vou trazer aqui um argumento a mais para reagirmos.

A gente fica sempre se perguntando como estaria a riqueza do país se todo o dinheiro da corrupção, das propinas, dos superfaturamentos, fosse usado como bem público.

Mas há um outro tipo de recurso de que nem sempre nos lembramos e que vai para o ralo diariamente: o tempo. O tempo das pessoas envolvidas nos processos gerados para dar uma “fachada” de seriedade a negócios escusos.

Vou dar um exemplo. Muitas vezes a corrupção opera com as cartas marcadas “abertamente”. Ou seja, a empresa – ou pessoa - favorecida está claramente identificada e processos licitatórios, neste caso, são apenas rituais em que todos os envolvidos encenam um simulacro de procedimento, um teatrinho para “cumprir tabela”. Mesmo assim, muita gente é envolvida nesta farsa. As propostas técnicas e comerciais que são desenvolvidas são fadadas à figuração, desde sua origem, mas envolvem equipes quase sempre competentes, usando horas e horas de seu tempo - e de sua qualificação e experiência - para que tudo aquilo vá para o lixo. Quanto mais complexo o projeto (e mais recursos sendo “disputados” como nas grandes obras, serviços de comunicação, grandes fornecimentos, etc), mais horas no lixo. Um desperdício de dar dó.

Outra situação igualmente grave: o processo não tem um dono, à priori (ou a tal "governabilidade" ainda não o loteou). Há de fato uma disputa, nos bastidores, mas entre políticos – e partidos - das mais diferentes laias e matizes, para ver quem tem maior poder de barganha junto às “instancias superiores”, de modo que seu “protegido” consiga vencer. Ou seja, nada do que está sendo gerado com afinco, nas propostas e projetos, terá a menor relevância. Com um agravante: a qualidade do que é apresentado pelas partes conferirá uma certa aura de respeitabilidade aos malfeitos de “loteamento” ou de disputa de forças políticas (e eventualmente aumentará a tarifa dos “flanelinhas” que virão cobrar a sua parte - em espécie).

Já imaginou se, a exemplo do dinheiro desviado, todas essas horas fossem de fato produtivas, gerassem riqueza, agregassem algum valor ao PIB ou ao FIB (Felicidade Interna Bruta)?

Portanto, não se omita, denuncie, grite, aponte, vaie, poste nas redes, replique, ensine: e não seja conivente.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ser ou não ser pontual? Eis a questão.


Nós, brasileiros, temos fama de não sermos pontuais. Que isto é uma questão cultural, e coisa e tal.

Também pudera. Crescemos vendo as festas nas nossas casas nunca começando na hora (e também sem hora de acabar, diga-se de passagem); desde cedo, nos acostumamos a esperar horas seguidas numa sala de espera desconfortável, para sermos atendidos pelo médico sempre atrasado (apesar da consulta marcada); nos conformamos com falta de pontualidade dos vôos, dos trens e dos ônibus. Não estranhamos que nossos pais e seus amigos nunca chegassem na hora que combinaram para se encontrar: alguém sempre tinha de esperar pelo outro. E nem reparamos quando a novela das oito passa a começar às oito e meia, às nove, ou quando for conveniente para a Rede Globo (todo mundo vai ver assim mesmo...).

Muitos de nós achamos este um traço meio folclórico, mas positivo, da nossa gente. Aí, de repente, começamos a trabalhar, e com a maior naturalidade, acreditamos que é natural se chegar na reunião uns minutinhos depois (até por que talvez ela nunca comece mesmo quando agendada); que o cliente pode esperar um pouco na linha e por aí vai.

Enquanto isso, leio que, no Japão, se um trem chega atrasado, são emitidos comprovantes para quem quiser justificar seu atraso no trabalho ou em algum outro compromisso. Lá, a tolerância com este tipo de acontecimento é pequena. A expectativa é que os serviços, as reuniões, as tarefas, as atividades sigam os horários programados.

Em vários países da Europa e mesmo nos EUA, há quem acerte seu relógio pela chegada do trem à estação ou do ônibus ao ponto.

Agora que este nosso “gigante está despertando” – finalmente- fica a dúvida sobre nosso futuro como povo que se atrasa. Será que vamos mudar, nesse mundo cada vez mais globalizado? Ou será que vamos aprender com a natureza, com seus nasceres e pores do sol exatos, com suas marés cheias e baixas nas horas previstas, e tantos outros exemplos.

E você? Como é que se vê nessa questão? Qual dos perfis abaixo é o seu?

- Sou pontual. É muito difícil me atrasar, pois procuro chegar sempre com boa folga aos compromissos.
- Acho uma perda de tempo ficar esperando pelo início de um compromisso. Me programo para chegar exatamente na hora marcada, ainda que corra o risco de pequenos atrasos.
- Não me preocupo muito com horários pois raramente as coisas começam no horário, mesmo. Prefiro deixar os outros esperando do que o contrário.
- Acho um charme chegar atrasado. Quem me conhece sabe disso e respeita. Procuro contar sempre uma história divertida para me justificar.

Fonte da Ilustração http://www.dementia.pt/a-prenda-ideal-para-um-atrasado/

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Iroko, o Orixá do Tempo

Iroko ou Tempo, como também é conhecido, é um Orixá muito antigo. Iroko foi à primeira árvore plantada e pela qual todos os restantes Orixás desceram à Terra. Representa, assim, a ancestralidade, os nossos antepassados, pais, avós, bisavós, etc., representa também o seio da natureza, a morada dos Orixás.

Iroko vive na mais suntuosa árvore que há numa roça de candomblé e também nas matas. Desrespeitar Iroko, a grande árvore, é desrespeitar sua dinastia, seus avós, seu sangue...

Iroko é a própria representação da dimensão Tempo. Toda a criação está nos seus desígnios. E é ele que acompanha, e cobra, o cumprimento do Karma de cada um de nós, determinando o início e o fim de tudo.
Corresponde a entidades cultuadas em diversas civilizações. Enki, o Leão Alado na Mesopotâmia e Babilónia; Anúbis, o deus Chacal, no Egipto; Teotihacan entre os Incas e Viracocha entre os Maias; também presente no Panteão Grego e Romano, onde era conhecido e respeitado como Cronus, o Senhor do Tempo e do Espaço, que abriga e conduz a todos inexoravelmente ao caminho da Eternidade. Fontes/referências: http://www.orixas.com.br e http://ocandomble.files.wordpress.com
Fonte da ilustração: http://ryanagabecholiveira.blogspot.com/2010/05/iroko.html

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A sustentável leveza da arte de Domingos Tórtora



















Domingos Tórtora é mineiro, trabalha em Minas, mas sua obra é universal. Não apenas pela sua linguagem como designer e artista plástico mas, principalmente, por se inserir num perfeito ciclo de desenvolvimento sustentável. A matéria prima de seu trabalho é apenas uma: cartolina de embalagens usadas, ou seja, material para reciclagem. Com isso, ajuda a manter as árvores como devem estar: de pé
Em um processo certificado, o papelão a ser reciclado é dividido em pequenos pedaços e se transforma em uma polpa que serve como matéria prima básica para a fabricação de móveis, objetos e peças escultóricas. As peças são moldadas à mão, secadas ao sol e recebem uma acabamento bastante refinado. Neste processo belo e trabalhoso, que respeita o "timing" e os ritmos da natureza, o papelão que se originou da madeira, essencialmente, é trazido de volta a um ciclo completo, e assume uma qualidade de madeira, como novo.

CLIQUE AQUI para conferir este "milagre" de transformação e as belíssimas obras de design que dele resultam.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Tempo e Poesia - Vinicius de Moraes

Poética (Vinicius de Moraes)

De manhã escureço
De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.


A oeste a morte

Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.


Outros que contem

Passo por passo:

Eu morro ontem


Nasço amanhã

Ando onde há espaço:

– Meu tempo é quando

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Trem das Onze em três tempos


Trem das Onze, composta por Adoniran Barbosa, está fazendo 50 anos e é um dos meus exemplos preferidos de músicas que falam do Tempo. Ou melhor, da falta dele. E nos dá também uma verdadeira lição sobre a arte de dizer "Não". Trago aqui três versões completamente diferentes:

Gal Costa e o grupo Demônios da Garoa, fazem uma leitura tradicional - e festiva- no raríssimo registro do programa Som Brasil, comemorando o aniversário de São Paulo em 1994. Clique aqui.

Maria Gadu traz uma roupagem moderna e intimista da canção. Clique aqui.

E a cantora Roane Ballmant nos brinda com uma surpreendente e gostosa versão em francês, numa levada à la jazz de New Orleans. Clique aqui.